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Opinião Curitiba
Desde: 20/03/2009      Publicadas: 486      Atualização: 12/03/2010

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 Conhecendo o Seu Bairro
  01/02/2010
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Feitura artesanal de vinho no Xaxim

No ano de 1952, os antigos moradores do bairro comemoram a produção de vinho na Chácara Derosso

Nesta edição iremos relembrar algumas histórias de moradores do bairro Xaxim que muita gente desconhece. Com detalhes sobre a feitura artesanal do vinho, trata-se de uma história da família do senhor Francisco Derosso, contada pelo seu filho mais novo, o senhor João Derosso.

A colheita e o vinho

É certo que, para se fazer o vinho, é preciso plantar a videira, cuidá-la, esperar nascerem os cachos da fruta, colher a uva e fazer o vinho. O parreiral não era dos maiores da região, mas era bem cuidado e produzia bem. A plantação dos pés de parreira iniciava nas proximidades do coqueiro e ia até os cedros. Eram mais ou menos 300 pés de parreiras, das qualidades Terci e Bergeraca, as quais recebiam cuidados especiais, como adubação e a colocação de todo o lixo varrido no terreiro. A poda era realizada anualmente e as amarras, eram feitas com vime. A uva Terci é a mais encorpada e dura, seu suco é forte e dá um vinho grosso, acusando quem o toma, pois a língua fica igual a do papagaio. A Bergeraca é uma uva mole, mais rosada, uma espécie de uva de mesa, o suco é fraco e dá um vinho muito aguado. É por isso que o Nono Derosso (Francisco) fazia a mistura das duas espécies de uva, para tornar um vinho mais suave.

A colheita

O dia da colheita era uma festa. Os vizinhos eram convidados para ajudar, cabendo à Nona Derosso (Januária) fazer um grande almoço. Lá vinha a turma dos Gusso, Rebelatto, o tio Paulim Brum, tio Angelim Cortiano, o Arnaldo Gabardo, o Bertinho Parolim, o tio Leoncio Derosso e a gurizada em geral (Rafael, Jacob, Lino, João, primos e filhos dos vizinhos). O Nono comandava a turma, impondo a disciplina e a ordem. Nada de estragar as uvas e comer o mínimo possível. A ordem era cantar, para que assim, no próximo ano a produção fosse maior. Tio Angelim, com suas estórias e cantigas animava a turma. A uva a princípio era estendida por alguns dias no paiol, até murchar, e toda a uva verde ou podre era retirada, o que proporcionava um vinho mais saboroso.

O vinho

Para esmagar os cachos de uva era utilizada uma caixa com gradil de madeira, por cujas frestas, não passava a baga inteira. O trabalho era manual, o Nono Derosso e o tio Paulim se revezavam no trabalho. Suas mãos ficavam roxas por quase um mês. Certa ocasião, tio Paulim (que era malandro), tomou o bonde com as mãos manchadas daquele jeito e uma senhora começou a olhar e ele disse: "Não se preocupe, estou me dirigindo a um médico para ver que doença é esta." A mulher apavorada levantou-se e deixou o tio Paulim falando sozinho no banco.

Mais tarde, com o aumento da produção da uva, resolveu-se fazer o esmagamento no dia da colheita. Decidiu-se também, que o esmagamento seria do modo tradicional, isto é, pisado. Meu pai pediu para o primo Hugo Gusso fazer um caixote grande, para encaixar no tinaço de fermentação (tina de madeira de carvalho com mais ou menos quatro metros de altura). Os colhedores iam chegando com as cestas de vime cheias de uva, as quais iam para o caixote, aonde duas pessoas com seus pés bem lavados, pisoteavam os cachos. Sabe-se que o vinho pisado é mais gostoso e encorpado, já que o suco é todo extraído na hora, enquanto que no vinho feito através de máquina, que apenas parte o grão, o vinho mais fino e menos colorido. Os pisadores deveriam de preferência serem mais gordos. Tio Jacó e Tio Lino, que eram mais reforçados, eram os mais solicitados para a tarefa. Os pés eram lavados numa tina de madeira, com sabão caseiro (geralmente era a Nona Derosso que fazia o sabão), com uma escova para limpar bem e secados com uma tolha limpa. Depois, para chegar no "tinaço" era estendida uma lona, para evitar o contato com o chão de terra batida. Cada dupla que pisoteada as uvas, antes de descer do caixote, deixava suas mãos impressas pela cor da uva, na parede. Terminado o esmagamento, colocava-se o açúcar numa base de 10 a 12 quilos, dissolvidos no próprio suco. No término da colheita, bebia-se muito vinho, acompanhado com biscoitos e salame seco.

Após dez dias de fermentação e quando o bagaço (sarpas) começava a descolar das bordas do tonel, era chegada a hora da trasfega, quando então o vinho novo é retirado do tinaço e transferido para os quintos de cem litros ou bordalezas de duzentos litros. Para este dia de muita alegria eram convidadas todas as pessoas que ajudaram na colheita e outros convidados especiais. O Nono Derosso comprava biscoitos e o salame especial já era reservado para o dia. Geralmente, convidava-se algum leigo no assunto, para proceder à sangria do tonel, que consistia em retirar o pino de madeira. A pressão era tão grande que retirado o pino (bodoque), o jato era tão forte que o incauto abridor levava um banho de vinho, o que era motivo de risos e gritaria por parte dos presentes. O vinho novo é por demais gostoso, porém de efeitos diversos, principalmente quanto a embriaguez e suas conseqüências. Assim, muitos convidados inexperientes logo cambaleavam. A cantoria, risos, conversas e as lorotas de caçadas e pescarias faziam parte das animadas rodas de provadores de vinho. Alguns convidados tinham que ser entregues em domicílio, antes com o Faeton (antigo automóvel da família), depois de 1948, com a caminhonete Ford. Certa ocasião, em 1970, convidei alguns funcionários da Copel, que nunca haviam participado da trasfega. A bebedeira foi tão grande, que muitos foram encontrados caídos no terreiro, nos estábulos e alguns dependurados nas cercas. No dia seguinte, muitos não foram trabalhar, já que o vinho novo dá uma grande ressaca.

Com o bagaço que sobra, é feito a vinheta, ou, vim picolo, que consiste em acrescentar-se ao bagaço certa quantidade de água e açúcar e deixar fermentar por mais alguns dias, formando um vinho aguado, porém bom de beber. Este mesmo vinho pequeno, deixado ao sol, transforma-se num excelente vinagre. Com o bagaço, através do alambique, é destilada a gostosa bagaceira, que é muito apreciada.

Na metade da década de 1970, uma grande praga conhecida como Pérola, que ataca a raiz das plantas sugando toda sua seiva, obrigou a família Derosso a arrancar os pés de videira, para evitar que a praga atingisse outras plantações.
  Autor:   Da Redação
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